domingo, 30 de março de 2014

Quem eram as esquerdas em 1964?




Francisco Julião, Tancredo Neves, Joao Goulart, Sérgio Magalhães e San Thiago Dantas
                Esse é o primeiro de uma série de dois textos sobre o espectro político (social e partidário) durante o governo João Goulart. O texto de hoje é dedicado as esquerdas. O objetivo é mostrar a intensa mobilização popular e as diferentes estratégias de organizações e lideranças de esquerda para implementar as reformas. Além disso, apresentamos a posição desses grupos em relação a questão democrática. 
              
  O Partido Comunista Brasileiro tinha uma presença forte no movimento estudantil e uma posição dominante no movimento sindical (controlado, inclusive, a CGT). Em seu V Congresso, os comunistas adotaram uma estratégia de apoiar transformações econômicas e sociais no interior do capitalismo e da democracia, praticamente abrindo mão da via revolucionária, chegando inclusive a apoiar um governo de “emancipação nacional” que contasse com a burguesia nacional.
                No campo, a brutal concentração de terras ensejou a criação das Ligas camponesas, centradas no nordeste (principalmente em Pernambuco) e em outros estados do país. As ligas defendiam camponeses arrendatários de terras, organizados em cooperativas, pequenos proprietários ameaçados por latifundiários e chegaram a organizar invasão de propriedades. Seu principal líder era o advogado Francisco Julião, que a partir de 1961 passaria a defender a realização da reforma agrária “na lei ou na marra”. O político comparava a situação do nordeste com a  de Cuba antes da revolução e acreditava que a organização dos trabalhadores rurais poderia levar ao mesmo resultado do país caribenho.
                Durante o governo JK (1955-1960) a União Nacional dos Estudantes passaria por forte politização, intervindo no debate nacional para além das questões universitárias. No início dos anos 1960, a entidade era comandada por uma aliança entre comunistas e a Ação Popular, grupo socialista católico com grande organização na época (do qual fazia parte o futuro presidente da UNE, José Serra). Primeiramente engajadas na defesa da reforma universitária, os estudantes através da UNE passariam a defender ativamente as reformas de base.  
                Outro setor importante que experimentava forte politização eram os subalternos das forças armadas. A legislação da época não era clara sobre a elegibilidade de suboficiais das forças armadas, prevalencendo uma visão contrária a candidatura. Muitas associações de suboficiais surgiriam com forte penetração, primeiro no exército, e depois na marinha (sobretudo entre os fuzileiros navais).
                E, por fim, os trabalhadores urbanos. Em outubro de 1962 era fundado o Comando Geral dos Trabalhadores, que funcionavam como uma confederação sindical (algo que era proibido pela legislação). Estavam subordinados ao CGT os principais sindicatos do país, reunindo a maioria dos trabalhadores sindicalizados. O CGT teria uma atuação decivia em diversos momentos do governo João Goulart, como na defesa da antecipação do plebiscito do presidencialismo, na defesa da reforma agrária (entre abril e setembro de 1963) e, principalmente, na organização do Comício de Central do Brasil.
                A grande liderança no campo da esquerda não era  o presidente, mas sim Leonel Brizola. Este se projetara na política nacional como governador do Rio Grande do Sul, através de medidas como expansão do ensino e expropriação de companhias estrangerias.  Em 1961, porém, o político gaúcho entraria de vez para a política nacional. Os ministros das três armas enviaram ao congresso um veto a posse de João Goulart (após a renúncia de Jânio Quadros).  No sul, Brizola organizaria a “Rede da Legalidade”, uma cadeira de rádio onde ele defendia a posse de Jango e criticava a tentativa de golpe. Do Ministério da Guerra partiram ordens para bombardear o Palácio do Piratini, ordem não acatada pelo comandante do IV Exército, General Machado Lopes. A sua atuação fora decisiva para a posse de Jango, ainda que sob a solução parlamentarista.
                No começo de 1963, Brizola articularia a Frente de Mobilização Popular (FMP), que reunia representantes de subalternos nas forças armadas, das ligas camponesas, de universitários (através da UNE), da CGT; uma espécie de “parlamento das esquerdas”. A Frente servia para politizar esses movimentos sociais, levando-os a defender um programa amplo de reformas radicais, para além de suas pautas específicas. A organização mostrou-se bastante crítica ao governo Jango, sobretudo por discordar de sua estratégia política “conciliatória”. Na visão destes, o presidente deveria defender reformas radicais, sem fazer qualquer concessão ao Partido Social Democrático (partido centrista que possuía a maior bancada do congresso e era indispensável para a aprovação de projetos).
                E onde ficava João Goulart, nessa história? Jango era um reformista moderado e tentava assumir o controle do PTB para chegar a alguma reforma, ainda que ela não fosse tão radical quanto a queriam os “nacional-revolucionários”. Para tanto, apostava na negociação parlamentar. O presidente formou ministérios com políticos pessedistas em todo o seu governo, tentado contar com o apoio desse partido no congresso. De fato, os pessedistas flexibilizaram bastante sua posição sobre as reformas, chegando a aceitar a expropriação de terras improdutivas com pagamento em títulos da dívida pública. Entretanto, os petebistas (dominados pela facção brizolista) não aceitavam fazer qualquer concessão para ver uma reforma aprovado. Ou era a reforma radical, ou não dariam apoio a reforma nenhuma. Vale lembrar que os membros de todas essas organizações foram unânimes na crítica ao Plano Trienal, que era o plano de governo de João Goulart elaborado por Celso Furtado e San Thiago Dantas.
                Mas, afinal, qual era a posição desses grupos em relação a democracia? Em suma, nenhum deles estava engajado em um golpe de Estado (no máximo, preparavam-se para reagir a um golpe da direita). Mas é necessário reconhecer que muitos deles não eram democratas. Brizola, por diversas vezes, aconselhava o presidente a fechar o Congresso Nacional. Em abril de 1963, quando se debatiam a reforma agrária no congresso, Brizola ameaçava o congresso, dizendo que ou eles aprovam uma reforma agrária em 90 dias, ou outros meios de implementá-la seriam encontrados. Não se trata de personificar a História, colocando a culpa em um personagem. Brizola era tido como líder por diversos grupos de esquerda e era, portanto, um interprete de seus ideias.
               As ligas camponesas, como já dissemos,  estavam envolvidas em processos revolucionários e era forte a inspiração cubana de Francisco Julião. No interior de Goiás foram encontrados armamentos e material de pregação revolucionária, com imagens de Fidel Castro e escritos de Francisco Julião, inclusive com descrição dos financiamentos de Cuba. No mais, o lema “reforma agrária na lei ou na marra” não era propriamente um libelo democrático.
                Mais grave ainda, em setembro de 1963 um grupo de suboficiais se reúne em Brasília para discutir formas de protestar contra a decisão do TSE que chancelava a ineligibilidade dos suboficiais. Saíram de lá não com um plano de protesto, mas com uma iniciativa de revolução. Rapidamente, presenderam o presidente do congresso e o ministro do STF (Vitor Nunes Leal) e assinavam suas notas para outros estados como “Comando Revolucionário de Brasília”. Rapidamente, as investigações apontaram a ligação deles com deputados próximos a Leonel Brizola. Fato é que o movimento foi rapidamente vencido e, mais uma vez, os grupos de esquerda se solidarizaram com a iniciativa. (Para além dos fatos de março de 1964 mencionados em outro texto).
                Porém, completamente alheios a esse autoritarismo estava uma ala de reformistas moderados do PTB, um grupo que tinha como principais lideranças o próprio presidente e o advogado San Thiago Dantas. Este último, com câncer em estado terminal,  ainda tentaria articular a Frente Progressista de Apoio as Reformas, uma tentativa de isolar politicamente a direita golpista e os radicais do PTB, no sentido de chegar a um denominador comum (partidário) sobre as reformas. O político mineiro percebia o risco de ruptura democrática advinda do isolamento político de Goulart. A Frente incluía desde políticos do PSD até o PCB (cuja direção, como dissemos, estava bem menos radical que os liderados de Brizola). Entre dezembro e fevereiro, Dantas se empenharia na Frente Ampla, mas seu projeto acabara fracassando, diante de virulenta oposição da FPN e de Brizola, que não aceitava qualquer iniciativa política que incluísse o PSD.
                Março de 1964 é um ponto de reversão. Após sucessivas tentativas fracassadas em sua estratégia de “conciliação”, Jango aposta na mobilização popular, como forma de pressionar o congresso a aprovar as reformas. Por um lado, não eram poucos os membros da esquerda que defendiam que o presidente deveria iniciar as reformas por decreto, unilateralmente. Entretanto, Jango queria apenas usar a mobilização para pressionar o congresso. Não pretendia fechá-lo. nem tornar-se ditador.  Todas as suas ações são coerentes com essa interpretação.
                Em suma, dentro das esquerdas, nem todos eram democratas, mas nenhum grupo participava da trama de um golpe de Estado, efetivamente. Devemos abandonar tanto a ilusão direitista de que o golpe salvou o país do comunismo, como a visão romântica que hoje tenta pintar as esquerdas como democráticas. Aliais esse interpretação a lá Fla vs. Flu, obscurece o forte conflito dentro do próprio campo da esquerda, fundamental para compreender o período.

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